Analisando os estudos – sérios – disponíveis sobre ingestão
protéica e saúde renal, observa-se que não existem dados consistentes que
afirmem a relação entre uma ingestão elevada de proteínas e prejuízo na saúde
renal de indivíduos saudáveis. O fato da restrição protéica ser uma das
principais medidas no tratamento dietoterápico em pacientes acometidos de
patologias renais, não pode ser estendido para pessoas saudáveis.
A relação entre uma
elevada ingestão de proteínas e dano renal se deve além do fato dos rins
eliminarem os produtos do metabolismo protéico (uréia e amônia), a questão do
alto consumo protéico aumentar a taxa de filtração glomerular, proporcionando
aumento da pressão dentro dos glomérulos nos rins. Mas sabe-se atualmente que
essas alterações são adaptações fisiológicas normais do organismo humano,
dentro de um limite da capacidade renal.
Em 1999, um estudo
tendo como objetivo observar a existência de danos renais em indivíduos obesos
com uma ingestão elevada de proteínas, Skov e colaboradores não encontraram
indicações de efeitos adversos na função renal.
Em 2000, Poortmans e
Dellalieux, em outro importante estudo, concluíram após investigar bodybuilders
e outros atletas bem treinados ingerindo até 2,8 gramas de proteína por quilo
de peso, que não existe correlação entre uma ingestão protéica elevada e dano
renal.
Em 2003, Knight e
colaboradores publicaram um clássico estudo que avaliou 1624 mulheres ingerindo
uma dieta hiper-protéica e sua relação com a função renal. Nenhuma associação
entre a ingestão hiper-protéica e decréscimo na função renal foi constatada.
Por outro lado, mulheres que iniciaram o trabalho com um ameno decréscimo nas
funções renais, apresentaram piora com o aumento na ingestão protéica.
Martin; Armstrong e
Rodriguez (2005) relatam, após extenso trabalho de revisão bibliográfica, que
apesar de dietas com restrição protéica serem apropriadas para tratamentos de
desordens renais, não existem evidências significativas para afirmar que uma
ingestão elevada de proteínas está relacionada diretamente com prejuízo para a
saúde renal.
Em se tratando da
relação entre ingestão protéica e cálculos renais, a literatura moderna relata
que uma elevada ingestão de proteína animal auxiliaria negativamente apenas em
indivíduos com cálculos já em formação, mas nenhuma desordem foi observada em
indivíduos sem essa característica. Isto demonstra que é necessária uma
pré-existente disfunção metabólica para que a ingestão elevada de proteína
possa exercer algum efeito.
Relaciona-se também a ingestão protéica com perda de massa
óssea. No entanto, isto pode ser verdade para indivíduos susceptíveis, como por
exemplo, mulheres sedentárias no período pós-menopausa, mas não para indivíduos
fisicamente ativos, principalmente aqueles engajados em treinamento com pesos.
Vale ressaltar que esses estudos consideraram uma ingestão
protéica até cerca de três gramas/kg, sendo que até o presente momento não
existem estudos avaliando ingestões protéicas mais elevadas e seu impacto na
saúde renal a curto, médio e longo prazo.
Após analisar esses
estudos podemos concluir, portanto, que uma ingestão protéica um pouco acima
das atuais recomendações para praticantes de musculação (aproximadamente dois
gramas/kg) não está relacionada a complicações renais em indivíduos saudáveis.
No entanto, antes de acrescentar mais medidas de whey protein em seu shake,
devemos analisar se existe demanda para esta ingestão, pois uma ingestão
desnecessária de proteínas pode inclusive proporcionar acúmulo de gordura
corporal.
Existem pouquíssimas evidências de que uma ingestão protéica
acima de dois gramas/kg promova o crescimento muscular, visto que o excesso
seria convertido em glicose e usado como fonte energética.
Então por que bodybuilders de alto nível em algumas fases da
periodização do treinamento ingerem ainda mais proteína?
Ocorre que esses atletas não utilizam tanta proteína apenas
visando o crescimento muscular. Eles também visam otimizar a perda de gordura
com essa estratégia. Com a ingestão controlada de carboidratos associada a uma
ingestão protéica elevada, ocorre um processo em nosso organismo chamado
gliconeogênese (conversão de proteína em glicose). Esse processo apresenta um
alto custo metabólico, ou seja, se gasta mais calorias para metabolizar a
proteína como fonte energética. Isto explica o porquê de muitos bodybuilders
aumentarem a ingestão protéica enquanto reduzem a ingestão de carboidratos nas
semanas que antecedem uma competição.
Lembrando que nas
últimas semanas para uma competição, bodybuilders experientes utilizam diversas
técnicas nutricionais, sendo que várias delas são pouco convencionais e não
podem ser consideradas saudáveis. Desta forma, essas técnicas são reservadas
apenas para as semanas anteriores a uma importante competição. Em qualquer
esporte de alto nível é comum observarmos medidas que não são completamente
saudáveis (perda abrupta de peso, excesso de treinamento, recuperação
inadequada de lesões, etc), mas muitas vezes necessárias para a busca de um bom
resultado. No entanto, estamos falando de atletas de alto nível experientes e
com grande supervisão profissional, e não de pessoas comuns que buscam a
nutrição e o exercício físico para manterem-se saudáveis e com uma estética
apreciável.
Resumindo, uma
alimentação rica em carboidratos e gorduras associada à inatividade física pode
ser muito mais maléfica à saúde renal do que uma ingestão protéica um pouco
acima do recomendado, visto que a obesidade, a hipertensão arterial e diabetes,
são conhecidos fatores de risco para doença renal crônica. A ingestão protéica
ideal irá depender de diversas características individuais e da fase de
treinamento em que o indivíduo se encontra. Portanto, consulte sempre um
nutricionista esportivo experiente.
Fonte:
http://www.rodolfoperes.com.br


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